Estudo de dados de vida real dos doentes onco-hematológicos com terapêutica oncológica a tomar suplementos alimentares/produtos naturais/chás na ULSM
Resumo
Introdução: O cancro constitui uma das principais causas de morbilidade e mortalidade a nível global. Apesar dos avanços terapêuticos, os efeitos adversos associados ao tratamento levam frequentemente os doentes a recorrer a suplementos alimentares, produtos naturais e chás. Contudo, a utilização concomitante com terapêutica oncológica levanta preocupações quanto à segurança, eficácia e potenciais interações. Métodos: Realizou-se um estudo observacional transversal com doentes onco-hematológicos acompanhados nos serviços de Oncologia e Hematologia da ULSM. A recolha de dados decorreu durante dois meses, através de um inquérito estruturado aplicado na Farmácia de Ambulatório de Oncologia e no Hospital de Dia. Foram recolhidas variáveis sociodemográficas, clínicas e de consumo, sendo as potenciais interações avaliadas com recurso a ferramentas de suporte farmacológico. Resultados: Foram incluídos 58 doentes, maioritariamente do sexo feminino (72%) e da área de Oncologia (86,2%). O diagnóstico mais frequente foi o cancro da mama (53,4%). Verificou-se que 86,2% dos participantes consumiam suplementos ou produtos naturais, sobretudo chás (74%), com destaque para camomila e cidreira. A maioria iniciou o consumo por iniciativa própria (n=30). Por indicação médica, apenas 5 doentes. Foram identificadas interações relevantes, nomeadamente com hipericão, que motivaram intervenção farmacêutica. Discussão: A elevada prevalência de consumo reflete a procura de alívio sintomático e melhoria da qualidade de vida. No entanto, a ausência de supervisão clínica aumenta o risco de interações, particularmente por interação com o citocromo P450. Os resultados reforçam a importância da identificação ativa destes consumos e da educação do doente, destacando o papel do farmacêutico na equipa multidisciplinar. Conclusão: Este estudo de vida real evidencia um uso expressivo de produtos naturais em doentes oncológicos, frequentemente sem orientação clínica. A integração da sua avaliação na prática clínica é essencial para garantir a segurança e eficácia terapêutica. Estudos futuros com maior dimensão amostral são necessários.
Palavras-chave: cancro, suplementos alimentares, eficácia, interações medicamentosas, farmacêutico.
